Vossos Olhos

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Faz parte [...]

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Como uma estrela [...]

 Já andei nas estrelas contigo, já caminhei com o som do vento e com o toque do teu sorriso [...] afinal a tua doença agravou-se com o tempo e ninguém dava conta, mas os teus olhos a cada dia que passava ficavam mais pesados e mais cansados e mesmo dentro daquele hospital pediste a uma filha tua « leva-me quero morrer em casa » e assim foi [...] vieste para casa e logo de manha os teus olhos fecharam e causaste o caos  dentro do teu castelo. Sabes ? Logo a esse tempo, eu estava em aulas e deu-me um aperto no peito e senti que algo estava mal [...] meus olhos encheram-se de lágrimas por sentir tal coisa, logo em seguida liguei à minha mãe perguntando se estava tudo bem e a resposta dela foi « acalma-te primeiro, o que te vou dizer não é fácil mas é o que estávamos à espera [...]» desliguei o telemóvel, arrumei e saí da sala.
 Só queria estar sozinha, fui para beira do rio, fechei os meus olhos e meditei ao som da música da minha alma [...] cheguei a casa, minha mãe, já vestida de negro como os meus irmão « vens ou ficas? vamos ver como está a tua avó » eu fiquei em casa, deitada na minha cama sem querer acreditar [...]
 Bem, o dia seguinte tinha chegado, e tinha mesmo de ir lá, era o dia do funeral [...] entrei na sua casa e vi toda a gente com os olhos carregados de tristeza [...] a correrem de lado para lado sem sentido, sem explicação. Meu avô, estava na sala talvez na urna não sei mas dentro da minha cabeça eu pensava que estava no seu quarto e procuro a minha mãe perguntando às minhas tias e elas « está na sala» e fui para a sala muito descontraída sem pensar no que poderia ver [...] o que não queria. De mãos interlaçadas e junto ao seu peito de gravata e casaquinho preto [...] seus olhos fechados, a pele pálida e frágil, não via o seu coração a bater... e fiquei em choque por minutos, sentei-me e ouvi a minha mãe « dá um beijo ao teu avô» eu nem olhei para ela, fixei na sua pele tão delicada e tão branquinha [...] fiquei apenas eu e a minha avó na sala, ela chorando e eu ainda fixada em todos os pormenores daquela urna tão bem decorada e requintada [...] ganhei coragem e peguei na sua mão, senti-a fria como se fosse neve de outro mundo, não senti o seu coração a bater, não senti qualquer movimento dentro do seu corpo [...] e senti um frio a passar-me pela minha mão correndo o corpo todo e arrepiando a minha pele [...] de momento olho para a porta e vejo o meu pai encostado olhando para o meu avô e deslarguei a sua mão e porquê?! [...] porque vi as lágrimas a escorrerem a cara do meu pai com tanta força que fiquei sem respirar [...] eu nem consegui pensar naquele momento. Caiu tudo naquele instante da lágrima escorrer pelo rosto do meu pai [...] pois nunca o vi chorar [...] e olhei para baixo e reparei que em roda da urna tinha dezenas de coroas, flores, velas [...] tudo de tudo, mas em muita quantidade [...] e logo em seguida vim para fora da casa e sentei-me num baloiço que era como um sofá onde o meu avô adorava sentar-se [...] e tinha pétalas de rosa vermelha e branca na sua entrada e velas a percorrer o espaço do pátio [...] vi pessoas e pessoas a entrarem naquela sala para o ver, afinal o meu avô era o Rei daquela terra, presidente durante 24 anos seguidos a comandar todo esse território, conhecendo milhares de pessoas de milhares de lugares [...] foi realmente impressionante o quão bom o meu avô tinha sido para aquela população [...]
 [...] A hora chegou. Hora de levarem a urna para o cemitério, e fui para dentro da casa e disse « Mãe, desculpa mas eu não consigo ir [...] » ela respeitou e foi embora. Eu fiquei na sala de estar, não na que o meu avô estava, mas sim noutra. Fiquei sozinha no seu castelo e sentia-me só independentemente de estar com uma prima minha da minha idade ao meu lado [...] não conseguia estar dentro daquela casa e fomos para o baloiço cá fora. «Eu ainda não estou em mim» disse a minha prima e eu nem respondi. Esperei até que a minha Mãe chegasse e fiquei ali quietinha sentada no lugar dele [...] olhava em torno da casa, lembrava-me dos momentos: das férias de verão quando eu ia lá e chamava-lhe de Pai; quando ele me dava beijinhos; quando ele dizia « estas bem filhota? eu quero-te bem. sabes que gosto muito de ti» [...] bem, o tempo passou a voar e começam a chegar todos com o cheiro de alma pesada e tristemente vazia. Eu só queria fugir dali. Só ouvia falarem do funeral «estava lá tanta gente que as pessoas até ficavam cá fora da porta do cemitério; pessoas de todos os lugares; pessoas de longe vieram para sua honra [...]» etc etc. E eu fiquei todo o tempo cá fora até o meu pai dizer « vamos para casa, por hoje já chega e temos de descansar todos nós». Ao ir para dentro do carro a minha avô chama-me com o rosto molhado das suas lágrimas, aperta-me a mão e diz « Deus vai ajudar-te». Entrei para o carro e a caminho de casa meu pai liga a rádio e deu uma música que me identificava com o que tinha acontecido. Essa música desde esse dia, 10 de Março de 2011, que me toca sempre que a ouço [ Ivete Sangalo- Quando a chuva passar]. Estava com a cabeça encostada no vidro a ouvir e dou por mim sentindo a letra tão aprofundada no meu choro que quando cheguei a casa deitei na cama e agarrei-me à almofada como se fosse a minha força [...] mas pensei « Será real? Foi o meu chamado Pai que foi para longe, foi a minha força foi [...]» e adormeci de tanto choro e de tanta angústia [...] O tempo passou e ficou marcado como a minha estrelinha lá em cima, que brilha, que sorri, que me dá força. Meu Pai de brincadeira está ali a olhar para mim, a cuidar de mim [...]
 Hoje, ele é o meu orgulho, ele foi tudo o que me segurou, e ele será Tudo o que me fortalecerá de agora em diante. Será o meu rei sempre, o rei daquele castelo. O meu orgulho será ele: Inácio Teixeira.


[ informações sobre Inácio: http://boelhe.blogs.sapo.pt/2011/03/10/ ]




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